Carta para quem não sabe o que carrego dentro de mim

Por motivos que nem sei quais são, por medo de me expor demais ou de me acharem ridícula. Guardei muito de mim entalado na garganta por muitos anos, mas agora decidi me libertar do cárcere da vergonha de ser eu, nem que seja em palavras. Escrevo para que minha alma possa aliviar de tantos choros engasgados que carrego nos meus sentimentos.

É, chega um tempo que se faz necessário dizer sem nenhuma decência ou educação o que nos faz tão descrentes e tão indignados. A pior coisa na vida é viver em meio a turbulências pessoais.

É muito difícil fingir no dia a dia que não aguento mais tanta desigualdade, tanta hipocrisia, tanta roubo, tanto luto, tanto sequestro, tanta discriminação e tanta diferença social. O mundo vai nos mostrando maldades absurdas, e os momentos tristes mais parecem cenas de novelas do que realidades e, o pior de tudo, é que estamos apenas assistindo e não estamos fazendo nada. Tenho medo de estar certa que as tristezas e as dificuldades dos outros sejam apenas detalhes, que tantas rezas e ladainhas não estão sendo ouvidas.

Eu tenho ficado cansada com tanta hipocrisia, com tantas besteiras juntas que as pessoas tem inventado. Não suporto mais discussões para nada, enquanto deveriam sugerir como viver melhor. Estou cansada da guerra dos sexos, dos anjos e das pobrezas de espírito. Como eu gostaria de ouvir opiniões fundamentadas no amor, ou em como ser melhor, ou em como ajudar o outro. Às vezes escuto tantas coisas que prefiro não ter opinião, sinto náusea por tantas afirmações bizarras e fundamentalismos desconexos. Por que ninguém não levanta a bandeira e defende o amor, os sentimentos bons?

Estou com preguiça de religiões que afirmam ser "as melhores", "as verdadeiras", enquanto poderiam admitir que ir a igreja não salva ninguém, mas que fazer o bem é o segredo para se chegar ao céu. Um Pai Nosso diário com cada palavra da oração vivida e comungada, pode te salvar mais do que bater no peito.

Não aguento mais ir ao supermercado, ao açougue, a padaria e medir cada centavo. Muitas vezes, ninguém percebe que eu conto o dinheiro que foi perdendo valor para a inflação. Ninguém percebe que não uso mais os mesmos produtos de antes e que não compro mais roupas a cada mudança de estação. Ninguém vê, mas meu bolso sente.

É muito difícil levantar todos os dias e encarar a vida, principalmente quando queremos mudanças que não dependem de nós, quando o dia insiste em ficar cinza e desejamos apenas uma pitada de cor. Como é difícil conviver todos os dias com as indiferenças, insensatezes e quando não há motivos para acreditar. Como é difícil fingir, quando arrancam de nós, as esperanças e as crenças.

Ando indignada com a troca de favores, com o jeitinho para tudo, com as caras feias das pessoas, com as más vontades e com a falta de sorrisos. Estou decepcionada pela falta de cumprimentos com boa vontade e dos vizinhos que não me perguntam mais se estou bem. Sinto falta de tantas coisas...

Que saudade de quando tudo era menos interesseiro e mais simples, quando um olhar expressava  amizade, quando as pessoas tinham menos pressa e mais zelo com o outro.

O tempo está indo, guardei todas as memórias boas nos meus segredos e as saudades na caixinha surpresa da vida. Não sou negativa e não sou otimista, estou a espera de um milagre. Sei que nada vai cair do céu se eu não me mover, mas estou apostando na bondade e no bem que nunca estão fora de moda.

Estou menos boazinha, menos paciente e mais cética. Talvez esteja me faltando fé para acreditar que um dia, nem que seja daqui poucas décadas tudo possa ser menos fingido, menos sacrificado e mais feliz. Esta vida foi feita para a simplicidade de viver, que nos dão momentos de alegrias, mas estamos nos perdendo em tantos modelos para sobreviver, em teorias absurdas, em acreditares impostos e seduções mentirosas. Tenho medo que daqui a pouco vamos ser tudo que inventam e deixar de viver verdadeiramente.

Realmente, ser gente é para quem se atreve a quebrar as regras, que neutraliza as opiniões alheias porque acredita em si mesmo e confronta com os discursos prontos dos outros, porque essas ideologias precisam de críticas pessoais também.

Decidi ser mais eu, mesmo que errada, alienada e do contra, mas não serei conivente com as pessoas e suas políticas de bem viver, porque cada pessoa é única e livre. Antes errar para acertar, porque assim vamos nos conhecendo de verdade. E, a cada dia, o amanhecer nos acorda com a missão de viver bem e inventar histórias.

Autor do post Simone Guerra

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