Velhinha e só

Não tenho medo de envelhecer, mas tenho medo de ficar sozinha. Tenho medo de ficar velhinha - sei que vou ficar - e não ter um alguém para ser minha companhia, realmente, me desatina. Ninguém precisa de um marido, uma esposa, filhos para suprir o "estar só", mas um amigo, um alguém para ligar, para nos levar para passear, se faz necessário, é imprescindível, quando temos mais idade e ninguém presta mais atenção em nós.

Ter filhos, uma família, não é certeza de ser cuidado uma vida toda ou receber carinho. Não é! Ninguém é, apenas está - já escrevi isso antes! Vamos mudando o tempo todo, o que temos e somos agora, não vai ser ou ter a mesma intenção daqui há um segundo.

Já recebi a mesma pergunta várias vezes: você tem apenas um filho, quem vai cuidar de você? Quem? Não sei. E, se eu tivesse mais filhos, seria garantia que algum deles fosse cuidar de mim? Nada é certo nesta vida... Nada! Nada se prevê, ainda bem. Uma vida estruturada e perfeita agora, neste exato momento, não garante um futuro menos solitário. Não estou sendo negativa, pois um pouco de realidade faz muito bem.

Premeditar o futuro, nos vermos sozinhos e com mais idade, é uma situação que nos faz tremer de pavor. Não adianta família e filhos, se a paciência esgota. Não adianta dinheiro e posição social, se os amigos não são de verdade e existem apenas interesses. Mãos estendidas é o que precisamos!

O medo é um dos piores e inevitáveis sentimentos que carregamos em nossas vidas. E, a solidão, é uma imposição covarde que muitos de nós vamos carregar algum dia. Situações impostas pela vida não tem como escapar, mas podemos respirar e transformar, de algum modo, os impactos e as tristezas. A audácia é o melhor confronto para as fragilidades pessoais que nos são impostas.

Não tenho medo de envelhecer, ver o corpo mudar, ficar limitada, perder a flexibilidade, ter dores nas articulações, dificuldades para andar, voz trêmula, mas entro em pânico quando penso na falta de um abraço, de um beijo no rosto, que ninguém toque as minhas mãos ou nunca mais me olhe nos olhos. Tenho medo de ser mais uma velhinha despercebida e sem atenção. Viver uma vida toda e chegar no fim não valendo, nem sequer, um dedinho de prosa com amor e paciência é de temer a qualquer um.

Com o andar das décadas, depois dos vinte anos, vamos percebendo, que as mudanças se tornam mas rápidas. Depois dos trinta, começamos a nos sentir mais poderosos. Depois dos quarenta, mais experientes. Depois do cinquenta com maturidade suficiente e com sessenta começamos a descer a ladeira - como diz uma amiga querida. Descer...

Não que seja o caminho para o fim, mas o começo para um viver melhor, mesmo um pouco mais velhinhos. Para se viver bem, a idade é o que menos importa. A idade é o detalhe, o relógio e não deve ser o momento para a aflição de estar indo embora.

Precisamos de amor, de atenção a vida toda e, na terceira idade, precisamos disso tudo dobrado. E, se ficarmos sozinhos, vamos suportar, apenas. Dói pensar em não ser mais ninguém quando ficarmos velhinhos. Um pouco de atenção a vida toda, é o mínimo para se viver intensamente.

- Simone Guerra

Autor do post Simone Guerra

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